Pág. Inicial Notícias Torre sineira de S. Cristóvão recuperada

Torre sineira de S. Cristóvão recuperada

A torre sineira de S. Cristóvão, na Penha, sofreu uma intervenção de recuperação e restauro no passado mês de Abril. A construção, junto à capela com o mesmo nome, apresenta agora uma nova dignidade e os seus sinos fizeram-se ouvir aquando à última peregrinação anual.

A este propósito, o Prof. António Amaro das Neves escreveu no seu blog “Memórias de Araduca”:

 

“No dia 25 de Agosto, O Comércio de Guimarães retomava o assunto, informando que os industriais de curtumes fizeram questão de se associar à iniciativa dos seus trabalhadores, oferecendo à Virgem da Penha um sino que pertencera à basílica de S. Pedro do Toural e que tencionavam comprar ao seu proprietário de então, que o tinha em duas traves no meio de um Campo em Roriz. Abriram uma subscrição e mandaram uma comissão a Roriz para tentar a transacção. Não foi possível, porque o proprietário exigiu 600$000 réis, o que foi considerado excessivo, pelo que decidiram oferecer um outro sino, mesmo que tivesse de ser feito de novo.

(…)

Em 1888 cumpriu-se a intenção de oferecer o sino à Senhora da Penha. Em vez de um, foram quatro sinos bem afinados, mandados comprar no Porto. O dó, que pesava duzentos quilos; o mi, com o peso de quinze quilos e meio; o fá, com quase cento e cinco quilos e o fá, com o peso de 85 quilos. Chegaram à estação do caminho-de-ferro no primeiro dia de Setembro, tendo sido recebidos pela respectiva comissão promotora (Bento Nobre, Manuel Luís Carreira Guimarães e José de Oliveira Guimarães) e por uma banda de música. No sábado seguinte, dia 8, foram conduzidos para a Penha, na romaria iniciada pelos homens dos curtumes no ano anterior.

A romaria foi imponente, como se percebe pela reportagem de O Comércio de Guimarães:

Os artistas e industriais de curtumes realizaram no sábado a sua peregrinação à Penha, ofertando à Virgem 4 magníficos sinos que compraram no Porto pela quantia 422$000 réis.

Os sinos estavam colocados em dois carros enfeitados com bandeiras, flores e murta. Ao primeiro carro estavam apostadas 7 juntas de bois com as hastes cobertas de rosas e outras flores, ao segundo 5 juntas.

às 9 horas da manhã, por entre milhares de pessoas, começou a desfilar a peregrinação, na ordem seguinte:

Uma banda de música; três índivíduos a cavalo, com vestuários pitorescos, levando o do centro a rica bandeira que possuem bordada a ouro; os sinos nos dois carros; a charanga composta na sua maior parte de cabaços com guarnições de metal; três indivíduos a cavalo, com trajes esquisitórios levando o do centro a antiga bandeira da classe; uma dança aldeã, composta de duas damas com as barbas muito bem escanhoadas, e de dois mocetões que fariam tremer um ministério, que não estivesse com argamassa; e finalmente uma tocata, composta do instrumentos de cordas, ferrinhos e cantadores. Uma beleza, no seu género.

A peregrinação atravessou as principais ruas da cidade por entre uma enorme multidão, seguindo depois para a Penha, acompanhada de muitíssimo povo, havendo durante o trânsito grande folia e reinação, como se costuma dizer na linguagem dos briosos filhos do trabalho.

Comércio de Guimarães, 10 de Setembro de 1888

 

Os sinos, que se destinavam à torre-campanário que estava em construção, foram colocados numa estrutura de madeira, sendo logo testados, com a execução de várias peças de música. Os entendidos aprovaram a sua afinação. Apesar de colocados em condições pouco propícias à melhor repercussão do som das suas badaladas, escutavam-se distintamente no Campo da Feira e nos pontos mais elevados da cidade.

A romaria continuou no dia seguinte, domingo, com uma afluência semelhante à do dia 8. O seu sucesso seria estampado nos jornais dos dias seguintes:

Não há memória do se haver reunido tanta gente na Penha, como no sábado passado, por motivo da valiosa oferta dos sinos feita pela briosa classe dos curtidores e pelo aparato com que foram para ali por ela conduzidos e acompanhados.

Religião e Pátria, 12 de Setembro de 1888”