Noé Diniz e a arquitetura da Penha: entre a natureza e a memória
Quem olha para o cume da Montanha da Penha a partir da Avenida Cónego Gaspar Estaço, junto ao Tribunal Judicial, vê, numa linha reta, a continuação imaginária da avenida a subir montanha acima — não por uma estrada, mas por um cabo suspenso, por onde circula o Teleférico da Penha-Guimarães. E qual a relação entre estas realidades? A resposta é simples: Noé Diniz, arquiteto conhecedor dos planos históricos de Guimarães, identifica nessa linha uma intenção deixada por Luís de Pina nos Planos Gerais de Melhoramentos de 1925 — ali se previa um teleférico, caso um dia viesse a ser construído.
Se de um arquiteto se esperam riscos com imaginação, Noé Diniz vai além: integra elementos e linguagens pré-existentes, harmonizando-os com a envolvência natural. A essa qualidade - cada vez mais rara na arquitetura - acrescenta sensibilidade, destreza criativa e sabedoria, da botânica à iconografia religiosa. Tudo isso explica porque a Montanha da Penha convida, atrai e permanece viva na memória coletiva.
Há mais de 40 anos, este arquiteto portuense - seguidor de Fernando Távora e contemporâneo de Siza Vieira - dedica-se à Penha. As suas intervenções seguem uma linha estratégica que valoriza a montanha como espaço de turismo, natureza e cultura — respeitando a sua classificação florestal e a sua dimensão estética, como espaço de lazer e local de culto. Criar um todo coerente onde havia fragmentação tem sido o seu maior desafio.
São da sua autoria as duas estações do teleférico. A estação superior, integrada na montanha, é uma das suas marcas: arquitetura em que arte e paisagem dialogam entre funcionalidade e estética. O facto de a estrutura se desenvolver num túnel sob a estrada - invisível - revela uma fluidez transformada em paisagem. A cobertura, convertida em miradouro, une praticidade e poesia. Também é da sua autoria a renovação da envolvente da Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Penha, da autoria de Marques da Silva. No chamado Santuário, destaca-se a fusão de sentidos: igreja, praça e penedo articulam-se de forma livre. O espaço tanto pode ser vivido como lugar de culto, como também - graças ao arvoredo “acidentalmente” colocado - desfrutado segundo a sensibilidade de cada um. Nada se impõe. Tudo convida.
Destaca-se ainda o projeto de renovação do Hotel da Penha, cuja concretização tem enfrentado obstáculos - verdadeiros “milagres dos homens”. Neste projeto, Diniz moderniza o interior sem comprometer a traça original de Raul Lino. A obra trará uma oferta diferenciada para o turismo de montanha, reforçando a ligação entre património, natureza e contemporaneidade.
Mais do que arquiteto de formas e espaços, Noé Diniz é arquiteto de pessoas. A sua obra reflete uma consciência humanista, enraizada na tradição da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, onde a arquitetura é entendida como serviço à comunidade e ao território. Tal como os mestres que o antecederam, Diniz projeta com empatia, escutando o lugar e os seus habitantes, devolvendo-lhes espaços com inspiração e encanto. A sua arquitetura não impõe - propõe.
É nesse gesto atento e silencioso que reside a sua força: criar não apenas edifícios, mas introduzir poesia nos espaços.
No passado dia 24 de junho, Dia Um de Portugal, Noé Diniz foi distinguido em Guimarães com a Medalha de Mérito Profissional, pelo “incansável trabalho em defesa da Montanha da Penha, símbolo do nosso património natural”.





